quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Dia 57

Quinta-feira.

Olho pela janela do quarto e lá fora parece não estar frio nem estar calor. Apenas um bonito dia de sol.
E as pessoas na rua parecem mais contentes.
Parece evidente que o comentário do senhor apenas fortalece a afirmação da senhora, mas para ela não é suficiente que concorde. Precisa saber as razões da sua concordância. Precisa absolutamente de saber. Porque assim, não. Ele que se explique, então. Que se explique, este homem, o companheiro de tantos anos, o pai dos seus filhos e a pessoa que escolheu para passar o resto da sua vida, o que quer dizer com “só num país como este”. Caso contrário, ela ficará sempre na dúvida. Mas o dia, esse, já o conseguiu estragar.

E como estranhamente eles não se mexem, e continuam a falar na mesma posição, acompanho o diálogo pela janela.
A opção em dizer a verdade. Mas porque não a disse logo? Porque só a revelou após ser pressionado? A questão não é tanto saber se ele concorda, ou não, que este sol é um perigo, mas sim dizer algo só por dizer, porque dá jeito, como se a quisesse calar, como se ela, com aquela observação, o aborrecesse de morte.
Naturalmente temos direito a saber que aborrecemos de morte outra pessoa. E só com essa consciência podemos optar: ou trabalhamos para mudar, ou continuamos a aborrecer a pessoa. Mas uma vez na ignorância, não podemos optar. E ele estava a retirar-lhe o direito de optar.

Quantas vezes terá acontecido, depois de tanto tempo? Teria ela conduzido a sua vida da mesma forma, havendo outras opções? Terá ela desperdiçado os melhores anos da sua vida ao lado deste homem? Inesperadamente, tudo está em cima da mesa: todos os problemas, tudo o que está para trás, tudo o que já se falara vezes e vezes sem conta, tudo o que parecia esclarecido, resolvido, morto e enterrado, volta novamente ao de cima.
Este sol é um perigo...