sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Dia 16

Sexta-feira – 2º dia de testes

Entro no Oculista do Feijó e dirijo-me a uma colaboradora. Escolho a que na minha opinião apresenta uma postura corporal impecável, talvez seja recém licenciada, não consigo perceber a esta distância. Suponho que está em inicio de carreira e pretende progredir, com certeza procurará impressionar-me com as suas competências profissionais, garantindo-me assim excelência no atendimento.

Puxo uma cadeira e sento-me. A seguir coloco o copo em cima da mesa.







Acho incrível a atitude da funcionária. É com este tipo de barreiras que se deparam os empresários em Portugal. Então lá por ser um oculista, não tem uma bata branca? Não é técnica? Será que julga que sou algum imbecil? Manifesto-lhe a minha indignação, faço ver que considero inadmissível este serviço, que realmente tenho dificuldade em qualificar, e que desejo registar a minha queixa no livro de reclamações para enviar cópia ao Conselho Europeu de Optometria e Óptica (ECOO), tão somente o organismo que os regula na europa.

Sou então encaminhado para a oficina, para um técnico de optometria. O técnico olha para mim, a funcionária diz que sim com a cabeça.

Peço-lhe para realizar as análises que entender necessárias. Fico para assistir ao processo. 
Saio do oculista satisfeito com o resultado. As análises não detectam absolutamente nada.

Chego a casa e dou início à produção. É fundamental manter os compostos químicos no mais absoluto segredo, por isso vejo-me obrigado a trabalhar na obscuridade da casa-de-banho.
 
As condições, enfim, não são as melhores. Porém estou determinado a conseguir 2 copos de água, já que vou precisar de stock. Ao fim de algum tempo, estão prontos.

Para já, devo apenas distribuir internamente.
Coloco um anúncio no OLX.

Fica em aprovação.
Estou preparado para meter água no mercado.

* É notável o que se pode fazer sem o apoio do estado para a criação de negócio. Utilizando apenas engenho e os poucos recursos disponíveis, é possível, ainda assim, surgir com um produto que inova pela sua simplicidade. Um exemplo positivo para muitos desempregados que andam por aí a viver na casa dos pais e com demasiado tempo entre mãos.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Dia 15

Quinta-feira – 1º dia de testes.
Decido tirar 2 dias para realizar um pequeno teste.
Percebo que não posso estar sempre a enviar currículos. É verdade que o registo de currículos, respostas a ofertas de emprego, apresentação de candidaturas espontâneas, tudo isto é bastante enriquecedor, mas para a alma. Torna-me uma pessoa melhor, não mais rico.
Assim, faço uma experiência: tomo a iniciativa de criar o meu próprio negócio.
Muito rapidamente, invento um produto.
Aqui está ele:
Chama-se copo de água. Julgo ter boas hipóteses de o comercializar, pois sem água a vida não é possível.

Provo vários copos. Sinceramente, não sei como é possível viver sem isto. Acho o produto ganhador. Naturalmente sou suspeito, por isso explico a ideia ao meu pai e pergunto-lhe se não se importa de provar um copo, para que possa ter algum indicador. Ele acede, e prova um copo.

 
A reacção é claramente positiva. O próximo passo é saber a real qualidade da água. Não vou lançar o produto no mercado sem aferir do impacto na saúde pública. O ideal é enviar amostras para laboratório, mas sei que não tenho dinheiro. Contudo, estas análises, é imperativo que as realize.
Resolvo ir ao único local que conheço mais parecido com um laboratório de análises: o Oculista do Feijó.





quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Dia 14

14 de Novembro, greve geral.

E agora? O que fazer nestes dias? Que medidas tem a segurança social previstas para quem não trabalha?
Procuro uma resposta no manual, afinal ele está aqui para apoiar-me.

Não diz nada. Só fala de emprego e trabalho. Não existe uma única referência a greves gerais ou qualqueroutro tipo de paralisação, o que é bem revelador da política social que está a ser aplicada.

Pelo que consigo perceber, a iniciativa está a afectar principalmente os transportes públicos – aliás, basta olhar pela janela. Desde manhã cedo que não passa uma única composição do metro sul do tejo.

Por outro lado, o metro também não passa nesta rua. Para ver o metro passar tenho de ir para o outro lado da casa, para a varanda da sala. Se porventura o metro aqui passasse, seria com certeza uma composição alternativa. Porém não está previsto que esta rua leve carris, logo os alternativos também não podem passar, logo não há alternativos. Não há dúvida, a CGTP deu-lhe forte.

Contudo, não sei como agir. Não tenho procedimentos. O que fazer em caso de greve geral? Deste modo faço o que me parece mais lógico: pego na mochila, visto o colete reflector e dirijo-me para a saída de emergência mais próxima.
Sou  único a descer as escadas, os meus pais não quiseram vir. Também não vejo mais ninguém do prédio a descer as escadas, por isso não sei bem para onde ir. Quando chego à rua decido dirigir-me à escola, que fica do outro lado, e que pela lógica é uma boa para referência como ponto de encontro.

Chego à escola, mas não vejo ninguém. É muito estranho.
Há um papel qualquer no portão, por isso aproximo-me.
Parece que há greve geral. A escola está fechada. Assim é evidente que as pessoas não vão sair dos prédios e dirigir-se para aqui, o que explica porque o local está deserto. Ainda assim, não posso deixar de sentir-me deslocado. Tenho vontade de tirar o colete. Por precaução, decido mantê-lo. Mas passo o resto do dia na rua, simplesmente não sei que fazer.

Ao fim da tarde, o meu pai chama-me do céu.
Afinal, não se passou nada. Não fiz nada, não vi ninguém.
Foi um dia perdido. 

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Dia 13

Terça-feira.

De manhã, uma carta da segurança social.
Abro o envelope.
É a comunicação da duração, e montante diário, atribuído ao meu subsidio – tal como a senhora do IEFP me informou que ia receber.

Sinto-me ansioso, tenho medo de continuar a ler. Mas como é evidente, preciso saber o que está lá escrito. Assim resolvo utilizar uma técnica de relaxamento que venho a aperfeiçoar há 40 anos.
12h04m

13h23m

13h24m
A técnica falha. Ainda não está totalmente refinada. Enquanto não resolver o problema da sobrevivência, o exercício não resulta. Desta forma nunca relaxo. Mas o tempo que ali passo é importante, já não é a primeira vez que noto que, por si só, o facto de sair debaixo da cama para ir comer enche-me de felicidade!

E depois de almoçar, leio a carta.
Duração: 675 dias
Montante diário: €17,62
Montante diário a partir do 181º dia: €15,85

Não é muito. Mas há muitas pessoas a trabalhar e a receber menos, e muitas famílias com filhos a receber menos. Tenho obrigação de poupar, até de colocar algum de lado. No futuro, posso precisar. Por exemplo: se amanhã vier a trabalhar, ao menos tenho dinheiro de parte. Assim posso aguentar-me durante algum tempo. Nestas coisas é preciso ter cabeça. É muito fácil cair no deslumbramento.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Dia 12

Fim-de-semana:

Abuso da sopa da pedra, como demais. Na sexta, abuso especialmente. Vou deitar-me e tenho pesadelos terríveis: num deles sonho que adormeço com o portátil ao colo, e que durante a noite ele cai ao chão, desfazendo o écran. O que pode representar isto? Serei eu o portátil em queda, e o écran o meu futuro? Ou é apenas um sonho e não devo procurar significados especiais?
Acordo sobressaltado: um estardalhaço!
O portátil caiu ao chão. Tenho o écran desfeito. Parece que adormeci com ele ao colo.
Tento não ver nisto uma contrariedade e procuro um olhar positivo sobre o incidente. Infelizmente, não há.
Resta adaptar-me, então. Aproveito o que posso, mas o meu  ACER ASPIRE 5532 já não existe.
Domingo à noite, os meu pais comentam o assunto.
Hoje:

Depois do almoço, a minha mãe entra no quarto. Senta-se na beira da cama. Quer falar comigo.
O que diz a seguir não constitui novidade.
Já sabia. Conheço-a como as palmas das minhas mãos.
Noto que está muito séria, o assunto é grave. Arrisco um tema.
Durante uma hora debatemos o mundo e a vida. A minha perspectiva do mundo e da vida. A minha atitude perante o mundo e a vida. E no fim, as razões pelas quais devo procurar ajuda especializada. Em nenhum momento é abordada a manifestação mórbida de hemorróidas. Saio da conversa maltratado. Custa-me muito ver a minha mãe chorar. Ando o resto do dia desanimado, com isto na cabeça. Segundas-feiras...