sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Dia 9


Sexta-feira, um dia feliz. Com o fim-de-semana em cima do joelho, fazemos-lhe festinhas na cabeça.
E de repente, dou por mim a acariciar o meu próprio joelho.
 
Sinto-me animado, naturalmente. Acariciar o meu corpo é algo que faço com grande satisfação.

Acho que apesar de não ter trabalho, devo permitir-me, ainda assim, o fim-de-semana.
Desta forma, sexta-feira é o último dia ‘em acção para o emprego’.
Quando no IEFP me entregam o manual, quando olho para ele nas minhas mãos e noto que está impecavelmente agrafado, lembro-me de pensar ”é claramente uma ferramenta poderosa; é uma enxada com a qual posso cavar a terra para obter o meu sustento”. A verdade é que preciso desesperadamente acreditar nisto. Por isso coloco o manual à prova.
Efectivamente, dobrando as folhas em U, consigo remover alguma terra. Desta vez a segurança social esmerou-se. O governo sabe bem o que anda a fazer. E de facto, o manual tem sido importante. Não só está aqui para me apoiar na procura activa de emprego, como também, aos poucos, num processo pessoal nem sempre fácil, apoiar-me nos momentos que estou mais frágil.
Os meus pais foram passar o fim-de-semana fora.
A minha mãe fez sopa da pedra, e planeou com pormenor todas as minhas refeições para estes dias.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Dia 8

08h00 da manhã, dia par. O telefone toca no quarto dos meus pais.

Certas pessoas não sabem desistir. Certamente julgam que haverá algum desempregado a dormir em casa, e que, eventualmente, terá de atender.
Levanto-me e vou atender. É o meu irmão.

- Os pais estão em casa?- respondo que não, que foram trabalhar.
- Estavas a dormir? – minto, digo-lhe que estava só deitado.
- Desculpa – diz ele.

A minha vontade é dizer “não faz mal, não tenho nada que estar deitado, afinal estou sem trabalho há 8 dias, e os pais, com a idade deles, já pegaram ao serviço; eu, por outro lado, tenho 40 anos e estou sem perspectivas, o meu currículo também não é brilhante, adicionalmente ainda não fiz o exame à próstata e ando há meses para arranjar o retrovisor do carro, por isso, não faz mal, não peças desculpa, porque não tenho nada que estar deitado”, mas acho a frase muito extensa, e opto por “ok”.

Às 10h estou na rua, em frente à ASDL (Assoc. Solid. Desenv. do Laranjeiro).

É a minha primeira apresentação quinzenal, prevista no artigo 17º do Decreto-Lei nº 220/2006, de 03 de Novembro.
Não tenho de o fazer já, a data limite é 21 de Novembro, mas quero saber como funciona e resolvo entrar.

Lá dentro sou atendido por uma rapariga a quem não pergunto o nome. Para efeitos de narrativa, vou tratá-la apenas por ‘par de mamas’. Questiono o ‘par de mamas’ sobre o funcionamento das apresentações quinzenais. Ela convida-me a sentar numa cadeira, e explica-me as regras: de 15 em 15 dias, tenho de apresentar-me. Aponto as regras num papel, para não esquecer-me. Depois entrego-lhe a declaração que me deram no centro de emprego. 
Ela passa-me outra, com nova data.
A seguir diz-me que estou pronto, e deseja-me um bom dia. 
Reparo que ambas as declarações têm a data de apresentação a negrito. Não obstante, estão também sublinhadas. Penso em perguntar “desculpe, porque razão estão as datas sublinhadas? ou acha que estarem a negrito não é destaque suficiente? seremos nós, desempregados, todos estúpidos? porque não nos gritam a data aos ouvidos, já agora?”, mas acho agressivo, não quero falar assim ao ‘par de mamas’, e opto por “obrigado”. 

Ao fim da tarde resolvo colar o retrovisor do carro. Peço à minha mãe super-cola, porém ambos sabemos que não é vulgar super-cola.
Trata-se de uma arma de destruição massiva. Sou obrigado a colocar luvas, para proteger-me. 
Do interior, retiro a pequena ogiva nuclear. 
Isto vai safar-me o retrovisor durante o inverno. Não tenho dúvidas.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Dia 7

Tenho que organizar-me. Em tudo. O meu quarto, a minha roupa, os meus livros, as pastas do meu computador, sobretudo a minha cabeça que não pára. A procura de trabalho é (também) um processo criativo, tenho mil ideias, uma a cada segundo que passa. Aliás, não são mil. É importante ser preciso.

Ou seja, considerando um tempo médio de 15 horas acordado, a uma ideia por segundo, tenho os seguintes resultados: 60 ideias por minuto, 3600 ideias por hora, 54000 ideias por dia.

A maior parte delas são para pequenos negócios. Naturalmente, não consigo desenvolver nenhum. Muitas vezes sinto-me esgotado e tenho que deitar-me uma hora mais cedo, tendo nesse dia apenas 50400 ideias. Preciso de arranjar um sócio, alguém que efectivamente pegue em alguma coisa e desenvolva o projecto. Mas claramente não tenho tempo para pensar nisso. E se é assim agora, como será quando começarem a chegar as encomendas? Um negócio não é só ter ideias. Não vou entrar nisto à maluca.

Devo dizer que retomei um dos meus antigos hábitos, algo que me dá muito prazer.
Voltei outra vez a falar com as plantas.

Nota final: continua a não haver sumo todos os dias.

Não posso dizer que estou surpreendido. Isto é muito revelador.
Como já disse, preciso dar-lhe tempo.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Dia 6

Já reparei que os dias pares correm-me melhor.

Hoje foi muito mais fácil do que ontem, apesar de ter feito a barba esta manhã, o que não deixa de ser profundamente aborrecido.

Ao meio dia fui ao centro de emprego de Almada inscrever-me. Correu muito bem. Agora o sistema não é por senhas, mas por marcação. A pessoa antes de mim falta à chamada, por isso sou logo atendido. Lá dentro, a senhora que está a atender-me pergunta se sou ‘escriturário’, eu digo que não, que sou ‘técnico’ e trabalhava na área da Qualidade. Ela repete ‘escriturário’ e tenho de enfatizar que não, não sou ‘escriturário’, na verdade sou ‘Técnico Especialista 1’, conforme ela pode observar na declaração.

Ela olha para mim e começa a escrever no computador: ‘e-s-c-r-i-t-u-r-á-r-i-o’. Não posso afirmar isto com toda a certeza, porque não contei, mas nunca lá colocou os 22 caracteres necessários para ‘Técnico especialista 1’, a malta do centro de emprego que não venha lixar-me! Contudo, como de manhã já tinha feito a barba, não estive para aborrecer-me outra vez. E depois disto vim-me embora. Ao todo, estive 10 minutos lá dentro. Foi rápido.

E eis que ao almoço, no frigorifico, uma surpresa:

A minha mãe fez-me sumo de laranja!

Este hábito da minha mãe, desde que aqui estou, perdeu-se. Até agora só tinha bebido água.

Mas isto significa que está menos chateada, embora só ainda tenha direito a meio copo.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Dia 5

Sem trabalho, relação amorosa, e de volta à casa dos meus pais.
Tudo no espaço de um mês. É pouco?

Não. Roubaram-me também o limpa para-brisas traseiro do carro. Foi ao pé da estação de Corroios, no dia em que resolvi poupar €1,60 e não meter o carro no parque. A mim ninguém me engana. Podiam ter levado mais um tampão das rodas, assim como assim também só já tenho um (todos roubados lá), mas não, só para chatear escolheram o limpa para-brisas.

Se pudesse escolher entre ficar com ele ou roubarem-no, escolhia ficar com ele. Mas se pudesse escolher entre ficar com ele, ou apanhar o ladrão a roubar-mo, escolhia apanhar o ladrão. Nem me importava de ficar sem a merda do limpa para-brisas, se pudesse apanhar o ladrão, e ele tivesse menos força que eu... há qualquer coisa em espancar alguém que alivia frustrações...

A minha mãe não gostou muito da novidade (ter-me cá). Já reparei que mal me fala, chama-me constantemente à atenção sobre qualquer coisa, está preocupada... Ainda por cima hoje de manhã aconteceu um incidente muito desagradável: quando entrei para a banheira vi uma toalha dobrada, e limpei-me a ela depois do banho. Afinal a toalha era da minha mãe, estava fresca e acabada de passar a ferro. Por si só, não é grave. Mas ontem fiz a mesma coisa com a toalha do meu pai, e agora estão as duas toalhas penduradas, limpas o suficiente para não justificarem uma lavagem, mas inutilizadas para eles. E nenhuma é minha.

Enquanto aqui estiver não quero causar estes constrangimentos, prefiro manter a discrição, ser arrumado, comer a horas, fumar menos, passar despercebido, se possível, ser invisível. E sair o mais depressa possível. Não é que não goste das condições, mas os meus pais merecem algum descanso...

Felizmente ainda tenho a minha saúde e duas mãos para trabalhar.