sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Dia 79

Sexta-feira.

Vou só ali até Madrid e depois até Londres e depois até Amsterdão e volto já dia 1 de Fevereiro.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Dia 78

Quinta-feira.

Sinto aquela ligeira ansiedade na véspera de uma viagem, as tais borboletas que as pessoas falam. No meu caso tratam-se de 172 bonitas e fascinantes borboletas, divididas por 3 espécies: 102 borboletas-monarca, 48 borboletas-zebra e 22 esmeraldas cauda-fina, umas das poucas borboletas verdes do mundo.

Mas são demasiadas borboletas. E irritam.
Depois de muito trabalho, consigo finalmente picar todos os pontos da minha check-list.
Tenho tudo aqui, estou pronto para seguir viagem. Só não encontro o meu casaco.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Dia 77

Quarta-feira.

Na sexta-feira vou-me embora para o estrangeiro. Vou tentar a minha sorte lá fora. Nos primeiros dois meses fico em casa de amigos, vão mostrar-me a cidade e ajudar-me na organização. E assim que estiver inscrito no fundo de desemprego, e a receber da segurança social, instalo-me num apartamento e começo à procura de trabalho em Portugal. É de facto o melhor que tenho a fazer. Um amigo que esteve na Alemanha vários anos desempregado, disse-me que lá o subsidio de desemprego é dos mais altos da europa. Há a questão de estar longe de casa, mas...
Assim porque não hei-de viver um bocadinho melhor, enquanto não encontro nada por cá? Outra vantagem é enriquecer-me o currículo, porque já estive lá fora desempregado. Parece não fazer sentido, mas faz todo o sentido. Vou dar um exemplo: dois candidatos a um emprego, com as mesmas habilitações, ambos há um ano sem trabalho, quem escolherá o empregador?

 Parece evidente que a escolha cairá sobre o candidato que esteve desempregado lá fora. Pela sua mentalidade. É uma pessoa viajada, alguém que já viu outros horizontes, que tem experiência de outras culturas, alguém que, ainda assim, não conseguiu arranjar trabalho, e que agora está disposto a qualquer coisa para sobreviver. Estas pessoas são mais-valias para qualquer empresa.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Dia 76

Terça-feira.

Já reparei que ando esquisito, não sei o que é. Ando a falar muito sozinho. Toda a gente fala sozinha, mas nos últimos dias tenho abusado. Sobretudo preocupa-me o facto de falar cada vez mais alto. Só estranho nunca me lembrar das conversas, isso é que é estranho. Talvez seja algum mecanismo de defesa do corpo.

Penso um bocado nas razões que podem levar-me a falar sozinho. Mas são demasiadas, é impossível analisar todas. Porém ocorre-me que, se falo sozinho, é perfeitamente natural que o faça com os meus botões. Talvez um deles possa dizer-me o que se passa. E assim, vou buscar um botão.
Mas o que está o botão a dizer? Porque não quer revelar-me as conversas? Com certeza não quer fazer-me acreditar que não se recorda de falarmos, não sou assim tão parvo. Sinceramente ignoro que motivos podem levá-lo a dizer isto. Só falta vir afirmar que nem sequer me conhece. Porém uma coisa é certa: não sou nenhum estranho. E tudo o que ele sabe, fui eu quem lho disse. Mas esta atitude só o prejudica. Assim vejo-me obrigado a utilizar técnicas de interrogação avançadas, para o fazer colaborar.
A simulação de afogamento não funcionou. Ninguém resiste a isto. Claramente, o botão não se lembra de nada de nada.
Talvez seja algum mecanismo de defesa do botão.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Dia 75

Segunda-feira.

Já reparei várias vezes que, numa discussão mais acalorada, o desemprego é usado como arma de arremesso. É uma a pedra apontada à cabeça do desempregado, lançada não para matá-lo, mas para o desequilibrar, para o atirar ao chão, mantendo-o lá meio aturdido e com a moral ferida, como se aquele fosse o seu lugar natural. É um golpe baixo, sobretudo se a pessoa não procurou a situação. Mas é um argumento muito eficaz.
Não digo que a pessoa faz por mal: a pessoa não faz por mal. Mas é um tiro fácil, e está à mão.
É até natural que o atacante, depois de reflectir um bocado, sinta-se mal.
Isto contudo não invalida a injustiça do ataque. O mal está feito. A consequência está lá: o sentimento de vergonha, que não se deveria ter. E o desempregado, sujeito a mais pressão, tenta por todos os meios inverter a realidade.