Vou só ali até Madrid e depois até Londres e depois até Amsterdão e volto
já dia 1 de Fevereiro.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
Dia 78
Quinta-feira.
Sinto aquela ligeira ansiedade na véspera de uma viagem, as tais borboletas
que as pessoas falam. No meu caso tratam-se de 172 bonitas e fascinantes
borboletas, divididas por 3 espécies: 102 borboletas-monarca, 48
borboletas-zebra e 22 esmeraldas cauda-fina, umas das poucas borboletas verdes
do mundo.
Mas são demasiadas borboletas. E irritam.
quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
Dia 77
Quarta-feira.
Na sexta-feira vou-me embora para o estrangeiro. Vou tentar a minha sorte lá fora. Nos primeiros dois meses fico em casa de amigos, vão mostrar-me a cidade e ajudar-me na organização. E assim que estiver inscrito no fundo de desemprego, e a receber da segurança social, instalo-me num apartamento e começo à procura de trabalho em Portugal. É de facto o melhor que tenho a fazer. Um amigo que esteve na Alemanha vários anos desempregado, disse-me que lá o subsidio de desemprego é dos mais altos da europa. Há a questão de estar longe de casa, mas...
Na sexta-feira vou-me embora para o estrangeiro. Vou tentar a minha sorte lá fora. Nos primeiros dois meses fico em casa de amigos, vão mostrar-me a cidade e ajudar-me na organização. E assim que estiver inscrito no fundo de desemprego, e a receber da segurança social, instalo-me num apartamento e começo à procura de trabalho em Portugal. É de facto o melhor que tenho a fazer. Um amigo que esteve na Alemanha vários anos desempregado, disse-me que lá o subsidio de desemprego é dos mais altos da europa. Há a questão de estar longe de casa, mas...
Assim porque não hei-de viver um bocadinho melhor, enquanto não encontro
nada por cá? Outra vantagem é enriquecer-me o currículo, porque já estive lá
fora desempregado. Parece não fazer sentido, mas faz todo o sentido. Vou dar um
exemplo: dois candidatos a um emprego, com as mesmas habilitações, ambos há um
ano sem trabalho, quem escolherá o empregador?
Parece evidente que a escolha cairá sobre o candidato que esteve
desempregado lá fora. Pela sua mentalidade. É uma pessoa viajada, alguém que já
viu outros horizontes, que tem experiência de outras culturas, alguém que, ainda
assim, não conseguiu arranjar trabalho, e que agora está disposto a qualquer
coisa para sobreviver. Estas pessoas são mais-valias para qualquer empresa.
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
Dia 76
Terça-feira.
Já reparei que ando esquisito, não sei o que é. Ando a falar muito sozinho. Toda a gente fala sozinha, mas nos últimos dias tenho abusado. Sobretudo preocupa-me o facto de falar cada vez mais alto. Só estranho nunca me lembrar das conversas, isso é que é estranho. Talvez seja algum mecanismo de defesa do corpo.
Já reparei que ando esquisito, não sei o que é. Ando a falar muito sozinho. Toda a gente fala sozinha, mas nos últimos dias tenho abusado. Sobretudo preocupa-me o facto de falar cada vez mais alto. Só estranho nunca me lembrar das conversas, isso é que é estranho. Talvez seja algum mecanismo de defesa do corpo.
Penso um bocado nas razões que podem levar-me a falar sozinho. Mas são
demasiadas, é impossível analisar todas. Porém ocorre-me que, se falo sozinho, é
perfeitamente natural que o faça com os meus botões. Talvez um deles possa
dizer-me o que se passa. E assim, vou buscar um botão.

Mas o que está o botão a dizer? Porque não quer revelar-me as conversas?
Com certeza não quer fazer-me acreditar que não se recorda de falarmos, não sou
assim tão parvo. Sinceramente ignoro que motivos podem levá-lo a dizer isto. Só
falta vir afirmar que nem sequer me conhece. Porém uma coisa é certa: não sou
nenhum estranho. E tudo o que ele sabe, fui eu quem lho disse. Mas esta atitude
só o prejudica. Assim vejo-me obrigado a utilizar técnicas de interrogação
avançadas, para o fazer colaborar.
A simulação de afogamento não funcionou. Ninguém resiste a isto.
Claramente, o botão não se lembra de nada de nada.
Talvez seja algum mecanismo de defesa do botão.
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
Dia 75
Segunda-feira.
Já reparei várias vezes que, numa discussão mais acalorada, o desemprego é usado como arma de arremesso. É uma a pedra apontada à cabeça do desempregado, lançada não para matá-lo, mas para o desequilibrar, para o atirar ao chão, mantendo-o lá meio aturdido e com a moral ferida, como se aquele fosse o seu lugar natural. É um golpe baixo, sobretudo se a pessoa não procurou a situação. Mas é um argumento muito eficaz.
Já reparei várias vezes que, numa discussão mais acalorada, o desemprego é usado como arma de arremesso. É uma a pedra apontada à cabeça do desempregado, lançada não para matá-lo, mas para o desequilibrar, para o atirar ao chão, mantendo-o lá meio aturdido e com a moral ferida, como se aquele fosse o seu lugar natural. É um golpe baixo, sobretudo se a pessoa não procurou a situação. Mas é um argumento muito eficaz.
Não digo que a pessoa faz por mal: a pessoa não faz por mal. Mas é um tiro
fácil, e está à mão.
É até natural que o atacante, depois de reflectir um bocado, sinta-se
mal.
Isto contudo não invalida a injustiça do ataque. O mal está feito. A
consequência está lá: o sentimento de vergonha, que não se deveria ter. E o desempregado, sujeito a mais pressão, tenta por todos os meios inverter
a realidade.
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