sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Dia 72

Sexta-feira.

Aproveito os saldos para comprar uns ténis novos. São bonitos e confortáveis.
Por infelicidade, não estavam em saldos. Mas encaixam no valor que tinha pensado para uns ténis: não dar mais de mil euros. A vendedora assegurou-me que no inverno podem aguentar máximos de 2mm de precipitação, acrescentando ainda que me ficavam muito bem, que eram perfeitos para mim, e que lhe lembrava um belo e vigoroso príncipe. Depois sentou-se numa cadeira para não desmaiar. Naturalmente, nada tenho a apontar a este serviço.

Mas quando em casa os observo com maior atenção, descubro o seguinte:
Existe um desvio do bico do calcanhar, em relação ao centro da calçadeira. Não é geometricamente perfeito. 
Também é observável por trás. É ainda mais flagrante.
É um grande constrangimento. Não faço ideia como passaram no controle de qualidade do fabricante.
E apesar de não ser visível durante a utilização, saber do desvio deixa-me os nervos em frangalhos.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Dia 71

Quinta-feira, quase fora de horas.

Pela primeira vez na minha vida, deixo passar a hora da apresentação quinzenal. E como hoje é o último dia, sou obrigado a ir ao IEFP de Almada.

Como sempre faço, dirijo-me ao segurança e peço uma senha verde.
E o segurança, como sempre faz, atira uma senha verde para cima da mesa.
Não é tanto não receber a senha na mão, não ter o trabalho de pegar nela. Sobretudo é a forma como a senha é atirada. É deselegante. Mas até hoje nunca disse nada, sou muito sensível e pode ser apenas impressão minha, não há necessidade de causar mau estar por mal entendidos. Só que hoje já venho aborrecido, deixei passar a hora da apresentação. E agora chego aqui e ainda tenho de ir buscar a senha à mesa.
A pergunta é maldosa e pensada para confundir. Sei perfeitamente que não andámos juntos na escola. Conheço todos os meus colegas de escola, se porventura esquecesse algum não seria ele, não temos sequer a mesma idade, seria impossível termos andado juntos na escola.  Só de olhar para ele vejo que isto nem lhe passa pela cabeça. Se calhar nem deve ter percebido a pergunta.
Não percebe a pergunta... tal como eu imaginava. É evidente que não percebe a pergunta. Porque eu enganei-me a fazer a pergunta. De facto “andámos juntos na escola, ó cara de caralho?!”, aplica-se apenas em situações de abuso de confiança. Por exemplo: se ele me tratasse por tu. Porém, não receber a senha na mão, é apenas uma indelicadeza. E realmente a pergunta não faz sentido. É uma situação muito embaraçosa. De repente, vejo-me numa posição em que devo explicar-me. 

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Dia 70

Quarta-feira.

Com um paninho embebido em água morna, limpo o cadáver de um mosquito.
Afinal o que se passa com o outro mosquito? Não vê que estou só a limpar? Será incapaz de concluir que não fui eu que matei o mosquito, que sou incapaz de fazer mal a um mosquito? A minha mãe lembra-se de fazer limpeza nestes lugares, mas eu desconhecia existir vida no tecto e de repente sou apanhado nesta realidade. Por conseguinte, tento acalmar o mosquito. Digo-lhe para não se enervar, que não tenho culpa, que estava de facto a limpar o interior do caixilho quando reparei no mosquito, mas que este já estava morto, e que sobretudo não quis ser desrespeitoso, pois também não gostaria, se por acaso os meus familiares andassem a voar perto das lâmpadas, que alguém os esmagasse contra o tecto. 

 O mosquito não percebeu o que eu disse. Agora ameaça com queixa no tribunal.
A minha mãe ouve tudo.
Não tenho medo de ir a tribunal, mas sei que ela fica preocupada. Tento explicar-lhe que é apenas um mosquito, que nada temos a temer da justiça dos mosquitos, que nada disto faz sentido,  e que, além do mais, ela é que me pediu para limpar o casquilho, precisamente por causa dos mosquitos.
Por fim lá convenço o mosquito que nada tenho a ver com aquilo. Esclareço que não passo de um contínuo, e apenas tratava da limpeza.
Depois prontifico-me a enterrar dignamente o corpo, num lugar bonito.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Dia 69

Terça-feira negra.

Do nada, a minha mãe dá inicio à sua campanha terrorista. Sou apanhado completamente desprevenido. A missão foi preparada na sombra e pensada ao ínfimo pormenor, tal como o primeiro ataque, que é brutal e destinado a quebrar-me o espírito.
Digo-lhe que é má ideia. Sem pensar muito indico-lhe duas ou três razões, as mais evidentes, aquelas impossíveis de ignorar, e no fim, para matar o assunto, refiro o pior cenário que me ocorre, e que transformaria a realidade num pesadelo.
Na resposta ela utiliza bombas inteligentes - “egoísta”, “só pensas em ti” e “tens obrigação”- com precisão cirúrgica. Acho o ataque cobarde, não esperava. A devastação é enorme e mal aguento o sentimento de culpa, mas recuso largar a minha bandeira. Contudo enfrento forças superiores, com muita experiência, e se não deixo descendência, então, sou obsoleto e descartável.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Dia 68

Segunda-feira, Winston está acabado.
E Winston sucede a Winston.

Cada vez que compro mais tabaco, gosto sempre de observar os micro-dramas.
De facto, poder-se-ia pensar que Winston está em negação. E é verdade, está em negação.
Contudo Winston serviu-me bem, pois enquanto pude, estoirei-o.

Porém, como todos antes dele, Winston deixou-se enrolar por Dora, a máquina de enrolar.
Dora não é propriamente a máquina que Winston escolheria para si. É um espiríto livre, não olha a marcas, é de todos os tipos de tabaco. Winston sabe disto, mas finge não ver. Exige apenas bons cigarros.

E Dora, de facto, faz bons cigarros.
Compreende-se agora: Winston está preocupado em deixar os gémeos.
Afinal, que futuro para eles?