Quinta-feira, um dia de sol.
O meu pai entra em casa
e diz-me que tenho o carro no lugar da coxa: "tens o carro no lugar da coxa",
diz ele.
Por acaso não me lembro
onde deixei o carro, mas no lugar da coxa? Porque razão faria
isso?
Pergunto se tem certeza,
coloco as minhas reservas.

Ah, assim é diferente.
Não tenho motivos para deixar lá o carro. Nem conheço pessoalmente a coxa.
Vejo-a da varanda à noite, quando vou fumar e enquanto ela passeia o cão. Em
dias de chuva não posso deixar de admirá-la. Uma pessoa com evidentes
dificuldades de locomoção, com carro adaptado para que possa conduzir, a passear
o cão debaixo de tempestade. Nestas alturas lembro-me dos meus cães, do
sacrifício que era para mim às vezes sair com eles, e sinto uma grande vergonha,
e sem acabar o cigarro volto para dentro de casa,
por não aguentar aquela lição de moral.
Só por uma grande
distracção posso ter deixado o carro no lugar da coxa.
Por isso vou à varanda,
para confirmar.
Bem me parecia que não
podia ter deixado lá o carro. Porém, só agora reparo: ela utiliza um dos lugares
reservado aos deficientes. Não parece correcto. Só por ter um carro adaptado?
Então pode andar a passear o cão à noite debaixo de chuva e não pode ter um
lugar normal? Francamente não compreendo. É uma surpresa, na verdade. Sempre
achei que os passeios com o cão fossem mais por ela, talvez uma forma de
obrigar-se a sair de casa, evidenciando e demonstrando que qualquer pessoa, por
mais dificuldades que tenha, com força de vontade e determinação correctas, pode
levar uma vida normal, igual aos outros. De certa forma via-a como um exemplo,
quando por exemplo me queixo de coisas sem importância. Mas agora vejo que não abdica
do seu lugarzinho de estacionamento especial e reservado.
Custa-me acreditar que
ande tão enganado em relação a uma pessoa.
Desço à rua, preciso ver
de perto.