sexta-feira, 8 de março de 2013

Dia 128

Ao colocar a mão no bolso do casaco, à procura de conforto, encontro uma senha que desconhecia carregar:

Não faço ideia de onde provém, nem há quando tempo anda comigo. Como é evidente, trata-se de uma senha refugiada. Não quero simplesmente deitá-la fora, como se a simples posse de uma senha inválida não trouxesse qualquer mais valia à minha vida. Não se tratam assim senhas refugiadas, ninguém nasce uma senha refugiada. Por conseguinte, estou na disposição de continuar a dar-lhe abrigo, pelo menos até as coisas melhorarem.

A senha parece portuguesa. Contudo, as senhas refugiadas costumam enganar. Muito provavelmente é cubana, talvez seja uma dessas que chegam de barco, dentro de contentores. Durante a noite, ao levar-lhe comida, experimento um pouco de espanhol.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Dia 127

É com alguma tristeza que constato a morte no amor-perfeito.
Ainda não é a morte em plenitude, na sua fase madura, sendo tudo o que pode ser. Mas o amor-perfeito já teve a sua época.
Apesar de nunca ter feito parte do meu círculo chegado de plantas, lamento que vá desaparecer. Falo apenas por mim, naturalmente. A linguagem, o tom sempre provocatório, o assédio constante, o total desrespeito pelas regras, sejam elas quais forem, nunca fizeram do amor-perfeito um exemplo de popularidade.
E de facto, não é possível falar com o amor-perfeito. Não é uma planta como as outras. Talvez veja em mim uma pessoa, não sei. Embora o meu propósito nunca tenha sido grandes debates, ou temas de profunda reflexão, mas apenas uma conversa casual, sobre assuntos corriqueiros. Porque como é natural, não falo de tudo com plantas. 

quarta-feira, 6 de março de 2013

Dia 126

Preciso de um projecto, ou melhor, de uma ideia para um projecto, ou melhor, de algo que desperte a ideia para um projecto. Muitas vezes o mais difícil é chegar precisamente aqui: saber o que querer, e o necessário para alcançá-lo. Mas pronto, com esta parte despachada, já posso ir fumar.


terça-feira, 5 de março de 2013

Dia 125

Estou a ficar outra vez mais sensível, ando melindrado com as coisas, parece que tudo me causa impressão moral.
Nesta fase, não consigo matar zombies. Porque acho que ninguém escolhe ser zombie.
Aos poucos, começa a despertar em mim outra consciência: porque hei-de ceder ao meu impulso irracional de matar tudo o que tenho medo? O problema é que não é práctico. O objectivo do jogo é precisamente matar zombies. Além de que ganho ao zombie abatido, e ando a poupar para um lança rockets ELITE M 202A1, que ando a namorar há algum tempo.
Porém, ninguém nasce zombie. Um zombie é sempre uma pessoa que, a determinada altura da vida, não teve opção. Naturalmente, tento contrariar esta consideração. Ao fazê-lo penso sobretudo nos sobreviventes, nos que fogem para salvar a vida, e na necessidade de ajudá-los, para que possam dar o seu testemunho. 

segunda-feira, 4 de março de 2013

Dia 124

As pessoas queixam-se quando a vida não corre bem.
E actualmente, qualquer coisa pode despoletar uma crise.

Num momento tão difícil, em que há tantas famílias aflitas, a sobretaxa sobre este miminho traz o povo à rua.
Com a crise dos M&M’s instalada, o mau estar no interior da coligação faz-se sentir.
E Paulo Portas faz uma declaração pública, onde esclarece a sua posição:
Para a oposição, são apenas jogos de palavras que nada esclarecem.
Entretanto, cada vez mais pessoas saem à rua: agora já não se tratam de manifestações pacíficas, a tensão aumenta, e a polícia é obrigada a intervir.
Por fim, o primeiro ministro é chamado à presidência da república para ser ouvido.
Na comunicação social sucedem-se entrevistas a grandes figuras, todos têm uma palavra a dizer. Todos, excepto Mário Soares. Quando é convidado para um programa de televisão, Mário Soares resolve inovar: e decide falecer em directo.
O desaparecimento de Mário Soares durante o horário nobre causa grande consternação. É uma grande perda para o país.
Contudo, o choque é um catalisador para várias coisas extraordinárias: tem a virtude de aproximar as pessoas.