sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Dia 100

Aproveito a data do meu 100º dia sem trabalho para levar a cabo duas mudanças que considero importantes: a primeira é acabar com a expressão ‘sem trabalho’, a segunda é acabar com os mails.

1ª mudança: cortar a expressão ‘sem trabalho’, porque é negativa, com o tempo torna-se mais pesada, e por mais que a repita não consigo banalizá-la. Mas sobretudo, porque já não faz muito sentido, há tanta coisa para falar, agora já é raro tocar no assunto do desemprego... E porque razão não posso, mesmo depois de empregado, continuar a enviar os mails?

2ª mudança: acabar com os mails, ceder a pressões externas e à minha vontade, e passar tudo a blog. Isto custa-me mais um bocado, por causa da lista pessoal. O mail é mais pessoal. A pessoa não tem de aborrecer-se a abrir uma página, recebe apenas o seu mail, confortavelmente. Mas agora acabou-se. O blog está feito. E um dia, quando eu morrer, quando nós todos morrermos, os nossos filhos, os filhos dos nossos filhos morrerem, o blog sobreviverá, perdurando na internet para toda a eternidade, até ao infinito e mais além, neste endereço: http://maisumesqueletozinho.blogspot.pt/

De certa forma, acabar com os mails faz-me sentir... desempregado. Sem nada que o fizesse prever, sou tornado redundante. Porém são reajustamentos que entendo necessários, são para aplicar, embora nestas coisas seja muito comum existir resistência há mudança. E eu não sou excepção. Mas já que tenho de sair, vou fazê-lo. Claramente não esperem é que vá de mansinho. Estou farto de ser enganado. Vou sair, muito bem, mas atrás de mim bato a porta com estrondo. Estou a falar de uma revelação, do mais profundo mistério, a pergunta que ocupa a mente das pessoas:

Quem é, afinal, Kane?
Pois bem: Kane, é Kane. É o tipo da flauta e do Kung-Fu.
Kane é David Carradine. Muitos já não se lembram, mas ele era do Laranjeiro.
Começou a dar os primeiros passos como actor no CIRL – Clube de Instrução e Recreio do Laranjeiro.
Entrou muitas vezes por aquela porta, aqui todos ainda o recordam.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Dia 99

Quinta-feira.

Sou portador de uma doença viral recorrente e sem cura, que embora benigna, pode causar graves complicações neurológicas.
Como se vê pela fotografia, esta condição afecta principalmente a mucosa da boca. Para diminuir os sintomas costumo usar alguns remédios, sendo o mais regular a heroína.
A heroína resolve o problema, durante algum tempo. Mas já ouvi dizer que não é o melhor para as infecções cutâneas.
Procuro na gaveta da casa de banho alguma pomada que possa ajudar-me e encontro isto:
Já ouvi falar desta pomada. Dizem que é boa. Pessoalmente devo referir que tenho aplicado a merda do Bucagel na merda dos cantos da boca ao longo da merda da semana inteira, e a puta da pomada cria uma puta sensação de ardor, além da puta de uma película fininha sobre a puta da ferida, como se fosse a puta de uma merda de uma segunda pele! E hoje descubro que tenho andado a lavrar num equívoco, pois isto é pomada para as gengivas.

O que procuro chama-se Aciclovir Labesfal, tal como o nome indica.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Dia 98

Quarta-feira.

Faltam-me fotografias da viagem. Não tirei muitas, e não encontrar algumas deixa-me aborrecido.
Das que tirei no interior do Tate Modern, por exemplo, só tenho esta:
É arte moderna. Não temos cá disto. A peça chama-se O Movimento de um Objecto, de Marysa Dowling, e consiste no seguinte: um cidadão é convidado a escolher um cenário e a criar uma pose usando um objecto do dia-a-dia, neste caso um saco de plástico azul. É tudo. Claramente é arte moderna, feita talvez no dia anterior à tarde. É difícil existir mais moderno. E de facto, à medida que caminhamos pelo corredor e observamos diferentes poses com o saco, torna-se evidente que o projecto de Marysa Dowling traça como os cidadãos se movem e comunicam, explorando a cidade através das pessoas que usam o objecto – só alguém que não percebe nada de arte moderna é que não vê isto. 

Gosto tanto que em casa replico o projecto. Chamo-lhe: O Movimento de um Objecto na Casa dos Meus Pais. Para o efeito, também utilizo um objecto do dia-a-dia - um saco de plástico, pois de momento não recordo nenhum outro objecto do dia-a-dia que possa usar em projectos de arte moderna. No trabalho procuro explorar a necessidade fundamental de nos representar-mos a nós próprios na vida quotidiana, e a forma como cada fotografia joga com esse desejo.

O Movimento de um Objecto na Casa dos Meus Pais

1 – Algo se desfaz na forma como a minha mãe sente as coisas.
2 – O meu pai: a forma como vive as áreas que habita.
3 – A minha interacção com os outros.
É arte moderna. Não temos cá disto.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Dia 97

Terça-feira.

Ao fim da tarde, um par de namorados lá fora.
Olha que bonito. Que inveja. Quem me dera ter uma pressão de ar: gostava de mostrar-lhes que, quando tudo parece bem, do nada, podem vir chumbadas. Naturalmente é preciso que os jovens sejam inteligentes e entendam as chumbadas figurativamente, como se os projécteis fossem coisas como a obsessão, os ciúmes, o ego, a necessidade de controlar, que muitas vezes numa relação o alvo somos nós, e que o parceiro pode disparar à queima-roupa.

Mas como é evidente o tiro não pode ser dado nesta posição. Denunciar-me-ia.
O ideal é ao nível do chão, através de uma brecha do cortinado, a coberto da semi-obscuridade do quarto.
Para que tenham um futuro melhor. Os tiros são para que tenham um futuro melhor.
É preciso que os jovens compreendam isto.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Dia 96

Segunda-feira.

E pronto, como diz Eminem em Lose Yourself: “snap back to reality”.
É surpreendente constatar que durante toda a viagem só existiu um único momento de pânico, dois momentos de pânico, ambos no regresso de Amsterdão para Lisboa, no aeroporto de Schipol. O primeiro foi enquanto tirava fotografias a mim próprio, normalmente faço-o à chegada, mas esqueci-me. Por isso decido fazê-lo à saída, com um sorriso, daqui a alguns meses já não sei onde tirei a fotografia, mas parece que estou a chegar a qualquer lado.
E enquanto vejo se fiquei bem, de repente, lembro-me: onde está o meu iPad? O iPad 2 Wi-Fi 16GB, que ainda agora tinha comigo? Não se trata apenas de uma peça de avançada tecnologia, com a qual não sei trabalhar bem, e que me é particularmente útil em meia dúzia de funções muito específicas, o iPad é sobretudo uma prenda dos meus amigos, mas o iPad não está comigo, porque o iPad ficou na zona de fumadores, e depois de fumar já estive na casa de banho, a cagar com calma, apenas sou específico porque pretendo dar uma ideia do tempo que já passou, e eu para aqui a tirar fotografias!

Por isso volto a correr, ao longo dos tapetes rolantes, em direcção à zona de fumadores.
E quando chego à zona de fumadores, e em ânsia abro a porta da sala, lá está ele, no mesmo local: intocável, puro.
Nos últimos anos não me lembro de tamanha onda de felicidade. Foi muito emocional.
E quando olho em volta, para certificar-me que ninguém me vê dar-lhe um beijo, de repente, lembro-me: onde está a mala? O mala que o meu irmão me emprestou, que ainda agora tinha comigo? Não se trata apenas da mala dele, com toda a minha roupa lá dentro, é sobretudo um objecto ao qual me afeiçoei, talvez por estar longe de casa, agora tenho carinho pela mala, mas a mala não está comigo, porque a mala ficou perto das portas de embarque, sozinha, largada onde estava a tirar fotografias, e eu para aqui a beijar o iPad!

Por isso volto a correr, ao longo dos tapetes rolantes, em direcção às portas de embarque.
E quando chego perto das portas de embarque, lá está ela, como uma noiva, à espera que me aproxime e lhe dê a mão.
Nos últimos anos não me lembro de tamanha onda de felicidade. Foi muito emocional.