Passo o resto do dia com alguma ansiedade. Quando falta uma hora para o
jantar, quando me preparo para ir tomar banho e depois sair, tocam à porta. Quem
poderá ser, a esta hora? Não posso estar a atrasar-me. Espero que não seja
ninguém inconveniente, por isso espreito antes de atender.
Não faço nenhuma ideia do que estou ali a fazer. O que será que quero, logo
agora?
Às vezes consigo ser bastante chato, não é nada com que não consiga viver,
mas neste momento não tenho tempo.
Se abrir a porta o mais certo é perder horas comigo próprio, e não posso adiar o
jantar, já tinha prometido a mim mesmo, se o fizer vou desiludir-me novamente,
depois será muito difícil ganhar a minha confiança outra vez. Custa-me muito
deixar-me pendurado à porta, mas decido não fazer barulho e fingir que não estou
em casa, na esperança de desistir e ir-me embora. Mas não consigo
enganar-me a mim próprio, naturalmente. Sei perfeitamente que estou em casa, apenas não quero
abrir a porta. Uma coisa é certa: não vou ficar aqui fora como um cão, tenho o
meu amor próprio! Por isso volto costas e começo a descer as escadas, porque não admito que ande a gozar comigo mesmo.