quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Dia 8

08h00 da manhã, dia par. O telefone toca no quarto dos meus pais.

Certas pessoas não sabem desistir. Certamente julgam que haverá algum desempregado a dormir em casa, e que, eventualmente, terá de atender.
Levanto-me e vou atender. É o meu irmão.

- Os pais estão em casa?- respondo que não, que foram trabalhar.
- Estavas a dormir? – minto, digo-lhe que estava só deitado.
- Desculpa – diz ele.

A minha vontade é dizer “não faz mal, não tenho nada que estar deitado, afinal estou sem trabalho há 8 dias, e os pais, com a idade deles, já pegaram ao serviço; eu, por outro lado, tenho 40 anos e estou sem perspectivas, o meu currículo também não é brilhante, adicionalmente ainda não fiz o exame à próstata e ando há meses para arranjar o retrovisor do carro, por isso, não faz mal, não peças desculpa, porque não tenho nada que estar deitado”, mas acho a frase muito extensa, e opto por “ok”.

Às 10h estou na rua, em frente à ASDL (Assoc. Solid. Desenv. do Laranjeiro).

É a minha primeira apresentação quinzenal, prevista no artigo 17º do Decreto-Lei nº 220/2006, de 03 de Novembro.
Não tenho de o fazer já, a data limite é 21 de Novembro, mas quero saber como funciona e resolvo entrar.

Lá dentro sou atendido por uma rapariga a quem não pergunto o nome. Para efeitos de narrativa, vou tratá-la apenas por ‘par de mamas’. Questiono o ‘par de mamas’ sobre o funcionamento das apresentações quinzenais. Ela convida-me a sentar numa cadeira, e explica-me as regras: de 15 em 15 dias, tenho de apresentar-me. Aponto as regras num papel, para não esquecer-me. Depois entrego-lhe a declaração que me deram no centro de emprego. 
Ela passa-me outra, com nova data.
A seguir diz-me que estou pronto, e deseja-me um bom dia. 
Reparo que ambas as declarações têm a data de apresentação a negrito. Não obstante, estão também sublinhadas. Penso em perguntar “desculpe, porque razão estão as datas sublinhadas? ou acha que estarem a negrito não é destaque suficiente? seremos nós, desempregados, todos estúpidos? porque não nos gritam a data aos ouvidos, já agora?”, mas acho agressivo, não quero falar assim ao ‘par de mamas’, e opto por “obrigado”. 

Ao fim da tarde resolvo colar o retrovisor do carro. Peço à minha mãe super-cola, porém ambos sabemos que não é vulgar super-cola.
Trata-se de uma arma de destruição massiva. Sou obrigado a colocar luvas, para proteger-me. 
Do interior, retiro a pequena ogiva nuclear. 
Isto vai safar-me o retrovisor durante o inverno. Não tenho dúvidas.