quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Dia 43

Quinta-feira, um dia de sol.
  
O meu pai entra em casa e diz-me que tenho o carro no lugar da coxa: "tens o carro no lugar da coxa", diz ele.
Por acaso não me lembro onde deixei o carro, mas no lugar da coxa? Porque razão faria isso?

Pergunto se tem certeza, coloco as minhas reservas.
Ah, assim é diferente. Não tenho motivos para deixar lá o carro. Nem conheço pessoalmente a coxa. Vejo-a da varanda à noite, quando vou fumar e enquanto ela passeia o cão. Em dias de chuva não posso deixar de admirá-la. Uma pessoa com evidentes dificuldades de locomoção, com carro adaptado para que possa conduzir, a passear o cão debaixo de tempestade. Nestas alturas lembro-me dos meus cães, do sacrifício que era para mim às vezes sair com eles, e sinto uma grande vergonha, e sem acabar o cigarro volto para dentro de casa, por não aguentar aquela lição de moral.

Só por uma grande distracção posso ter deixado o carro no lugar da coxa.
Por isso vou à varanda, para confirmar.
Bem me parecia que não podia ter deixado lá o carro. Porém, só agora reparo: ela utiliza um dos lugares reservado aos deficientes. Não parece correcto. Só por ter um carro adaptado? Então pode andar a passear o cão à noite debaixo de chuva e não pode ter um lugar normal? Francamente não compreendo. É uma surpresa, na verdade. Sempre achei que os passeios com o cão fossem mais por ela, talvez uma forma de obrigar-se a sair de casa, evidenciando e demonstrando que qualquer pessoa, por mais dificuldades que tenha, com força de vontade e determinação correctas, pode levar uma vida normal, igual aos outros. De certa forma via-a como um exemplo, quando por exemplo me queixo de coisas sem importância. Mas agora vejo que não abdica do seu lugarzinho de estacionamento especial e reservado.

Custa-me acreditar que ande tão enganado em relação a uma pessoa.
Desço à rua, preciso ver de perto.