Quinta-feira.
Olho pela janela do quarto e lá fora parece não estar frio nem estar calor.
Apenas um bonito dia de sol.
E as pessoas na rua parecem mais contentes.

Parece evidente que o comentário do senhor apenas fortalece a afirmação da
senhora, mas para ela não é suficiente que concorde. Precisa saber as razões da
sua concordância. Precisa absolutamente de saber. Porque assim, não. Ele que se
explique, então. Que se explique, este homem, o companheiro de tantos anos, o
pai dos seus filhos e a pessoa que escolheu para passar o resto da sua vida, o
que quer dizer com “só num país como este”. Caso contrário, ela ficará sempre na
dúvida. Mas o dia, esse, já o conseguiu estragar.
E como estranhamente eles não se mexem, e continuam a falar na mesma
posição, acompanho o diálogo pela janela.
A opção em dizer a verdade. Mas porque não a disse logo? Porque só a
revelou após ser pressionado? A questão não é tanto saber se ele concorda, ou
não, que este sol é um perigo, mas sim dizer algo só por dizer, porque dá jeito,
como se a quisesse calar, como se ela, com aquela observação, o aborrecesse de
morte.
Naturalmente temos direito a saber que aborrecemos de morte outra pessoa. E
só com essa consciência podemos optar: ou trabalhamos para mudar, ou continuamos
a aborrecer a pessoa. Mas uma vez na ignorância, não podemos optar. E ele estava
a retirar-lhe o direito de optar.
Quantas vezes terá acontecido, depois de tanto tempo? Teria ela conduzido a
sua vida da mesma forma, havendo outras opções? Terá ela desperdiçado os
melhores anos da sua vida ao lado deste homem? Inesperadamente, tudo está em
cima da mesa: todos os problemas, tudo o que está para trás, tudo o que já se
falara vezes e vezes sem conta, tudo o que parecia esclarecido, resolvido, morto
e enterrado, volta novamente ao de cima.
Este sol é um perigo...