sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Dia 58

Sexta-feira, a última deste ano.

Acabo de descobrir isto no écran do portátil:
É um ponto quase imperceptível, não sei há quanto tempo está ali.
Não vou já entrar em pânico. Vou passar um paninho, assim que as mãos pararem de tremer.
Parece que não quer sair...
... o écran está picado...

O     É  C  R  A  N     E  S  T  Á      P  I  C  A  D  O!
O
É C R A N
E S T Á
P I C A D O!


quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Dia 57

Quinta-feira.

Olho pela janela do quarto e lá fora parece não estar frio nem estar calor. Apenas um bonito dia de sol.
E as pessoas na rua parecem mais contentes.
Parece evidente que o comentário do senhor apenas fortalece a afirmação da senhora, mas para ela não é suficiente que concorde. Precisa saber as razões da sua concordância. Precisa absolutamente de saber. Porque assim, não. Ele que se explique, então. Que se explique, este homem, o companheiro de tantos anos, o pai dos seus filhos e a pessoa que escolheu para passar o resto da sua vida, o que quer dizer com “só num país como este”. Caso contrário, ela ficará sempre na dúvida. Mas o dia, esse, já o conseguiu estragar.

E como estranhamente eles não se mexem, e continuam a falar na mesma posição, acompanho o diálogo pela janela.
A opção em dizer a verdade. Mas porque não a disse logo? Porque só a revelou após ser pressionado? A questão não é tanto saber se ele concorda, ou não, que este sol é um perigo, mas sim dizer algo só por dizer, porque dá jeito, como se a quisesse calar, como se ela, com aquela observação, o aborrecesse de morte.
Naturalmente temos direito a saber que aborrecemos de morte outra pessoa. E só com essa consciência podemos optar: ou trabalhamos para mudar, ou continuamos a aborrecer a pessoa. Mas uma vez na ignorância, não podemos optar. E ele estava a retirar-lhe o direito de optar.

Quantas vezes terá acontecido, depois de tanto tempo? Teria ela conduzido a sua vida da mesma forma, havendo outras opções? Terá ela desperdiçado os melhores anos da sua vida ao lado deste homem? Inesperadamente, tudo está em cima da mesa: todos os problemas, tudo o que está para trás, tudo o que já se falara vezes e vezes sem conta, tudo o que parecia esclarecido, resolvido, morto e enterrado, volta novamente ao de cima.
Este sol é um perigo...

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Dia 56

Quarta-feira.
E pronto, lá se foi mais um Natal.

Este ano pedi ao menino Jesus três desejos: alegria, saúde e paz.
E como por milagre de Jesus, na manhã do dia de Natal, todos os desejos se concretizam.

Alegria – durante a noite um anjo desce à terra, e deixa um cinzeiro novo para substituir o outro que já metia nojo.
Saúde – O anjo deixa também, por baixo da porta do meu quarto, uma guia para uma Rectosigmoidoscopia Flexível.
Trata-se de um exame que irá permitir ver num monitor, em imagens ampliadas e de alta definição, o interior do meu cólon. É como se fosse um bilhete para ir ao cinema, ver um bom filme.

Paz – e ao ir-se embora, o anjo levou consigo todas as criancinhas da escola.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Dia 51

Sexta-feira, fora de horas.
É quase natal.

Estou ansioso que o meu irmão abra a minha prenda.
É um kispo verde, contra a chuva e o frio, contra o mau olhado e a inveja, contra o ódio e a desconfiança, contra a cobiça e a raiva, só não tem é capuz.

Mas como é bonito e barato, não resisto, e compro um exactamente igual.
Olha, que surpresa! O que será? Não quero deitar-me a adivinhar e estragar assim a magia do natal, mas pelo volume parecem kispos verdes, contra a chuva e o frio, contra o mau olhado e a inveja, contra o ódio e a desconfiança, contra a cobiça e a raiva. Porém, não parecem ter capuz. Devem ser dos baratos.

Como os volumes são grandes poderiam destacar-se na sala, mas o padrão camuflado dissimula-os.
Nem se dá por eles no presépio.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Dia 50

Quinta-feira, 50 dias sem trabalho.

Amanhã é o dia da formação sobre VIDA ACTIVA, no Centro Sócio Cultural de Santo António.
Tenho alguma curiosidade em saber do que se trata, embora desconfie da verdadeira utilidade de toda a acção.
Porém o maior problema é outro: amanhã não dá jeito fazer a barba. No Sábado há um jantar de natal, um jantar onde existem grandes expectativas, onde o tema é casino, onde todos estão a trabalhar e a dar o melhor que podem para superar o jantar do ano passado, e quero ir bem barbeado, impecavelmente barbeado, quero dizer, é o mínimo.

Porém, de amanhã para Sábado, a pele não tem tempo para descansar. Preciso de dois dias.
Caso contrário, sei bem o que acontece.
Mas, que imagem darei na formação com a barba por fazer? Ainda por cima sobre vida activa? Estou mesmo a colocar-me na mira para algum comentário, ou pior, para alguma piada previsível, ou pior ainda, para servir de exemplo...

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Dia 49

Quarta-feira, fora de horas.

Porque me sinto tão atraído por esta lata cheia de tabaco?
 
Qual o motivo do presépio estar sem prendas? E porque estão elas atafulhadas ao lado do móvel da televisão?
Que sentido faz participar numa formação em vida activa? Porque não uma formação em vida, no geral?
O que faço agora com o hipopótamo e o elefante que sobraram do conjunto onde veio o camião para o mail da TAS PORTUGAL?
Existem perguntas para as quais nem sequer ouso procurar resposta.
Isso confere algum mistério à vida e, de alguma forma, torna as coisas mais bonitas.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Dia 48

Terça-feira.

Uma baixa, logo pela manhã; um mail com um pedido: “retira-me da lista”
(o que faço imediatamente)

Em 48 dias é a segunda baixa, mas não é pessoal. É apenas o conteúdo. Por acaso nem acho o dia 47 nada de especial, suponho que não esteja directamente relacionado. Talvez seja o acumular das situações, ou dos dias sem trabalho. Compreendo, não é fácil para quem trabalha levar com isto todos os dias. Na verdade, excepto algumas pessoas que pediram para serem incluídas, não pedi autorização a ninguém e limitei-me a adicionar nomes a uma lista... 

Aproveito então para pedir o seguinte: se existe mais alguém que pretende ser removido da lista, pode por favor enviar-me um mail com o assunto: “já chega?!”
Não é necessária mais nenhuma explicação. É um processo fácil, rápido, anónimo e sem constrangimentos.

Posso mesmo exemplificar como funciona. É na verdade muito simples.

O mail entra na inbox com o assunto: “já chega?!”.
De seguida, utilizando a nova funcionalidade no mousepad, deslizo agilmente para a página dos contactos.
Depois basta seleccionar o nome pretendido e...

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Dia 47

Segunda-feira.

Começo o mail para enviar à TAS PORTUGAL, com o CC de várias entidades públicas.
Um dos camiões deles partiu a esquina, e um bocado de telhado, da casa onde a minha mãe nasceu.
Como não parecem demonstrar vontade em resolver o problema, decido falar alto para toda a gente ouvir. Mesmo que não paguem, ao menos que fiquem com a vergonha.

Este trabalho requer um camião, que compro no chinês por € 2, 50. Esforço-me por decorá-lo convenientemente.
Recruto também algumas figuras do presépio. Servirão de intervenientes na história: motorista e testemunha.
Por enquanto é preciso perder tempo no ensaio das cenas. É importante.
Lá para o fim da semana deve estar pronto. É muito complicado dirigir bonecos de presépio.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Dia 44

Sexta-feira, apesar da chuva fraca e do vento a 39 km/h.


O assunto "portátil" está fechado. Sou agora proprietário de um NOTEBOOK ASUS S46C, comprado na Box. Não sei se fiz bem. Acho que foi muito caro.Quero dizer, pelo que paguei, podia ser melhor. Porém, é de alumínio. Infinitamente bonito...
Sininho não sabe o que diz. Não passa de um boneco de presépio ao qual foi acrescentado um balão de fala.
Considero inadmissível que se dirija a mim nestes modos.
Apesar de tudo, Sininho fala por si. E o líder do presépio está claramente comigo.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Dia 43

Quinta-feira, um dia de sol.
  
O meu pai entra em casa e diz-me que tenho o carro no lugar da coxa: "tens o carro no lugar da coxa", diz ele.
Por acaso não me lembro onde deixei o carro, mas no lugar da coxa? Porque razão faria isso?

Pergunto se tem certeza, coloco as minhas reservas.
Ah, assim é diferente. Não tenho motivos para deixar lá o carro. Nem conheço pessoalmente a coxa. Vejo-a da varanda à noite, quando vou fumar e enquanto ela passeia o cão. Em dias de chuva não posso deixar de admirá-la. Uma pessoa com evidentes dificuldades de locomoção, com carro adaptado para que possa conduzir, a passear o cão debaixo de tempestade. Nestas alturas lembro-me dos meus cães, do sacrifício que era para mim às vezes sair com eles, e sinto uma grande vergonha, e sem acabar o cigarro volto para dentro de casa, por não aguentar aquela lição de moral.

Só por uma grande distracção posso ter deixado o carro no lugar da coxa.
Por isso vou à varanda, para confirmar.
Bem me parecia que não podia ter deixado lá o carro. Porém, só agora reparo: ela utiliza um dos lugares reservado aos deficientes. Não parece correcto. Só por ter um carro adaptado? Então pode andar a passear o cão à noite debaixo de chuva e não pode ter um lugar normal? Francamente não compreendo. É uma surpresa, na verdade. Sempre achei que os passeios com o cão fossem mais por ela, talvez uma forma de obrigar-se a sair de casa, evidenciando e demonstrando que qualquer pessoa, por mais dificuldades que tenha, com força de vontade e determinação correctas, pode levar uma vida normal, igual aos outros. De certa forma via-a como um exemplo, quando por exemplo me queixo de coisas sem importância. Mas agora vejo que não abdica do seu lugarzinho de estacionamento especial e reservado.

Custa-me acreditar que ande tão enganado em relação a uma pessoa.
Desço à rua, preciso ver de perto.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Dia 42

Quarta-feira, hoje a manhã rendeu.
Faço uma data de coisas importantes que precisava fazer, por esse lado sinto-me aliviado. Ainda assim estou com a neura. Não sei o que é. Tenho dias assim. Nem me apetece fazer uma piada, nem nada. Já reparei que desde que fiquei sem trabalho tenho mais preocupações, ando mais acelerado, mais stressado, há sempre qualquer coisa a preocupar-me, às vezes merdas, outras vezes o mundo e a vida, mas eu não sou assim, sou uma pessoa que nunca se preocupa muito com nada, e ao fim de 41 dias começo a ficar cansado, por isso tenho de tirar duas semanas para trabalhar em algum lado, porque preciso de um lugar onde possa estar odia todo na boa.
Isto estoira a cabeça a uma pessoa.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Dia 41

Terça-feira, fora de horas.


Depois de percorrer (várias vezes) a Worten do Almada Fórum, a Worten do Rio Sul, a Worten do Colombo, não consigo, ainda assim, encontrar um modelo de portátil que satisfaça todas as minhas necessidades. Já na Fnac, a conversa é outra. Mas para isso preciso que a Worten me devolva o dinheiro, e sei que não é politíca deles, por isso devo apresentar um discurso credível baseado em duas coisas: imagem e argumento.

Imagem
É importante apresentar-me como uma pessoa moderna, conhecedor da tecnologia que me rodeia, sendo de certa forma um produto dessa própria tecnologia, alguém para quem a informática não tem qualquer tipo de segredos. A única pessoa que conheço assim, que posso utilizar para base do modelo que pretendo, é Neo, do Matrix.

E frente ao espelho da casa de banho, treino frases chave.
Bem sei que não é a mesma coisa que Neo. Como disse, é apenas um modelo.
Mas estou convicto que passo uma imagem moderna e dinâmica. Ainda mais que dinâmica: aerodinâmica.
Entro na Worten do Almada Fórum com este modelo. Dirijo-me ao balcão e peço ao rapaz para falar com o responsável de loja. O rapaz vai apressado chamá-lo. Enquanto espero consigo ouvir os comentários dos outros clientes: "há pessoas sempre na vanguarda da tecnologia!" e "uau!", ou ainda "demais!". Uma rapariga toca-me no ombro e diz emocionada "quero mamá-lo agora!". Recuso. Gosto muito de ajudar os outros, mas não é altura. Sergio, o responsável de loja, chega finalmente. Olha-me de alto a baixo, e depois, num gesto que não compreendo, saúda-me à maneira nazi. Não quero acreditar. Será possível que não tenha visto o filme? Estará a confundir-me com Herr Flick? Mas esse era coxo, certamente não pode ser esse. Não obstante estou convicto que Sérgio está impressionado com a minha imagem. Dou metade da missão concluída.

Argumento
Começo por estender-lhe a mão e dizer o meu nome "Olá Sérgio, sou o João Lopes". Depois continuo: "Olhe, comprei aqui um portátil há 2 semanas, não fiquei satisfeito com ele e vim devolvê-lo. Na altura deram-me um cartão prenda com esse valor, para que pudesse trocar por outro produto à minha escolha. Mas aqui está o problema: por muito que procure, simplesmente!, não consigo encontrar na Worten um portátil que satisfaça todas as minhas necessidades. Eu sei que a vossa politíca de devoluções não contempla devoluções de dinheiro, mas REPARE, SOU VOSSO CLIENTE HÁ MUITOS ANOS, posso mesmo dizer que estou fidelizado, tenho confiança na marca, aliás, não só eu como a minha familia, fazemos compras nesta loja há muitos anos (1º buraco: a loja sempre foi Vobis, só recentemente passou a Worten), nunca tive uma queixa, nem dos produtos nem do serviço, tudo o que tenho em casa foi comprado aqui, excepto uma máquina de café, e devo dizer que até já estou arrependido (2º buraco: olho à volta e não há máquinas de de café, a loja não vende máquinas de café, nem a Vobis vendia máquinas de café; preciso terminar, em 10 segundos vou autodestruir-me; atalho para o fim), e ainda que não seja procedimento vosso a devolução de dinheiro, peço-vos que abram uma excepção para mim."

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Dia 40

Hoje tenho um pequeno acidente com a bicicleta. O desastre dá-se dentro da garagem.
Por norma desço sempre a rampa em segurança, mas hoje o carro do meu pai não está lá.
Planeio então a descida em toda a sua plenitude: voar pelo espaço vazio, travar só mesmo em cima do armário, à maluca.
Acontece porém que numa das mãos levava um volume de tubos para cigarros, e na outra mão segurava as chaves da garagem, e assim só dá jeito travar com 2 dedos.
Antes de bater na porta com toda a força lembro-me de pensar "espero não magoar muito as costas..."
Os estragos são sobretudo nos tubos, muitos ficam amarrotados, e na corrente, que saltou.
Mas e se o carro lá está?