quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Dia 70

Quarta-feira.

Com um paninho embebido em água morna, limpo o cadáver de um mosquito.
Afinal o que se passa com o outro mosquito? Não vê que estou só a limpar? Será incapaz de concluir que não fui eu que matei o mosquito, que sou incapaz de fazer mal a um mosquito? A minha mãe lembra-se de fazer limpeza nestes lugares, mas eu desconhecia existir vida no tecto e de repente sou apanhado nesta realidade. Por conseguinte, tento acalmar o mosquito. Digo-lhe para não se enervar, que não tenho culpa, que estava de facto a limpar o interior do caixilho quando reparei no mosquito, mas que este já estava morto, e que sobretudo não quis ser desrespeitoso, pois também não gostaria, se por acaso os meus familiares andassem a voar perto das lâmpadas, que alguém os esmagasse contra o tecto. 

 O mosquito não percebeu o que eu disse. Agora ameaça com queixa no tribunal.
A minha mãe ouve tudo.
Não tenho medo de ir a tribunal, mas sei que ela fica preocupada. Tento explicar-lhe que é apenas um mosquito, que nada temos a temer da justiça dos mosquitos, que nada disto faz sentido,  e que, além do mais, ela é que me pediu para limpar o casquilho, precisamente por causa dos mosquitos.
Por fim lá convenço o mosquito que nada tenho a ver com aquilo. Esclareço que não passo de um contínuo, e apenas tratava da limpeza.
Depois prontifico-me a enterrar dignamente o corpo, num lugar bonito.