Pela primeira vez na minha vida, deixo passar a hora da apresentação
quinzenal. E como hoje é o último dia, sou obrigado a ir ao IEFP de Almada.
Não é tanto não receber a senha na mão, não ter o trabalho de pegar nela.
Sobretudo é a forma como a senha é atirada. É deselegante. Mas até hoje nunca
disse nada, sou muito sensível e pode ser apenas impressão minha, não há
necessidade de causar mau estar por mal entendidos. Só que hoje já venho
aborrecido, deixei passar a hora da apresentação. E agora chego aqui e ainda
tenho de ir buscar a senha à mesa.
A pergunta é maldosa e pensada para confundir. Sei perfeitamente que não
andámos juntos na escola. Conheço todos os meus colegas de escola, se porventura
esquecesse algum não seria ele, não temos sequer a mesma idade, seria impossível
termos andado juntos na escola. Só de olhar para ele vejo que isto nem lhe
passa pela cabeça. Se calhar nem deve ter percebido a pergunta.

Não percebe a pergunta... tal como eu imaginava. É evidente que não percebe
a pergunta. Porque eu enganei-me a fazer a pergunta. De facto “andámos juntos na
escola, ó cara de caralho?!”, aplica-se apenas em situações de abuso de
confiança. Por exemplo: se ele me tratasse por tu. Porém, não receber a senha na
mão, é apenas uma indelicadeza. E realmente a pergunta não faz sentido. É uma
situação muito embaraçosa. De repente, vejo-me numa posição em que devo
explicar-me.


