E pronto, como diz Eminem em Lose Yourself: “snap back to
reality”.
É surpreendente constatar que durante toda a viagem só existiu um único
momento de pânico, dois momentos de pânico, ambos no regresso de Amsterdão para
Lisboa, no aeroporto de Schipol. O primeiro foi enquanto tirava fotografias a
mim próprio, normalmente faço-o à chegada, mas esqueci-me. Por isso decido
fazê-lo à saída, com um sorriso, daqui a alguns meses já não sei onde tirei a
fotografia, mas parece que estou a chegar a qualquer lado.
E enquanto vejo se fiquei bem, de repente, lembro-me: onde está o meu iPad?
O iPad 2 Wi-Fi 16GB, que ainda agora tinha comigo? Não se trata apenas de uma
peça de avançada tecnologia, com a qual não sei trabalhar bem, e que me é
particularmente útil em meia dúzia de funções muito específicas, o iPad é
sobretudo uma prenda dos meus amigos, mas o iPad não está comigo, porque o iPad
ficou na zona de fumadores, e depois de fumar já estive na casa de banho, a
cagar com calma, apenas sou específico porque pretendo dar uma ideia do tempo
que já passou, e eu para aqui a tirar fotografias!
E quando chego à zona de fumadores, e em ânsia abro a porta da sala, lá
está ele, no mesmo local: intocável, puro.
E quando olho em volta, para certificar-me que ninguém me vê dar-lhe um
beijo, de repente, lembro-me: onde está a mala? O mala que o meu irmão me
emprestou, que ainda agora tinha comigo? Não se trata apenas da mala dele, com
toda a minha roupa lá dentro, é sobretudo um objecto ao qual me afeiçoei, talvez
por estar longe de casa, agora tenho carinho pela mala, mas a mala não está
comigo, porque a mala ficou perto das portas de embarque, sozinha, largada onde
estava a tirar fotografias, e eu para aqui a beijar o iPad!
E quando chego perto das portas de embarque, lá está ela, como uma noiva, à
espera que me aproxime e lhe dê a mão.
Nos últimos anos não me lembro de tamanha onda de felicidade. Foi muito
emocional.